terça-feira, maio 04, 2010

UM DIA ESPECIAL



Mais logo, quando acordar,
Quero ser um girassol
E rodar o dia inteiro
Sempre virada para o sol,
Quero brilhar contra o céu
E absorver toda a luz
Que o sol tiver p'ra me dar...

E quando a noite chegar
E eu me deitar na cama,
Serei tocha, serei chama
P'a meus sonhos enxergar...

Foto da web.

terça-feira, abril 27, 2010

MEDO


Tu tens um medo:

Acabar.

Não vês que acabas todo o dia.

Que morres no amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que te renovas todo o dia.

No amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que és sempre outro.

Que és sempre o mesmo

Que morrerás por idades imensas.

Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.



Cecilia Meireles
 
Photo Credit Bina Sveda  (encontrada a net)

quinta-feira, abril 15, 2010

INQUIETUDE

Uma inquietude me assola
E me incendeia o olhar.
É a tua voz que ouço
Ou o meu coração a falar?
.
O meu relógio, calado,
Olha os ponteiros sem horas,
Porque o tempo está parado
E se derrama, alucinado,
No nada que à volta existe.
.
Uma inquietude me assola.
Um silêncio que persiste.
.

quinta-feira, abril 08, 2010

COISAS DO AMOR


SE
Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Foto encontradaa net

domingo, março 28, 2010

VOLTAR

Eu quis amanhecer
limpa e renovada
sem feridas abertas
e sem uma só mágoa recalcada,
nem que para isso tivesse que ser rio
e ser levada até ao mar,
p'ra lá ficar a vaguear
até que o sal tudo sarasse
e eu deixasse de ter frio
de manhã, ao acordar.
.
Nessas águas estendi o rol da minha vida
e deixei que se afundassem
as memórias mais pesadas,
salvando apenas uma ou mais sentida
que embrulhei no azul daquele mar
e que vou levar comigo,
como lembrança estremecida,
para saber quem sou
e para onde vou,
de manhã, ao acordar.
.
E quando por fim amanheceu,
foi aquela cor azul
que inundou o meu olhar
e me trouxe de volta até aqui,
onde sempre foi e será o meu lugar.
Fografia encontrada na net em
persefone-hades.blogspot.com

quarta-feira, março 10, 2010

EM BUSCA DO AMANHECER

Vou em busca de um amanhecer
sereno e de neblina vestido
onde encontre o meu verdadeiro ser
e a vida volte a ter sentido.
Não sei o tempo que vou demorar
nem sequer se vou voltar,
as viagens ao interior do eu
são sempre imprevisíveis.
Mas os amigos que aqui fiz
estarão sempre comigo.
Imagem da net

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

RENOVAÇÃO


Hoje acordei assim
Leve linda e livre
Querendo enfrentar a vida
E meus sonhos renovar
.
E serei asa
E grão
E rio também
Serei o verde dos campos
E flor ainda em botão
Serei árvore
Serei sombra
E fruto sabendo a pão
Serei chama
E também vento
Serei a luz do luar
Serei chuva
E depois água
Serei barco
Serei vela
Serei guerra
Até encontrar a paz.
Fotografia encontrada na net

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

MULHER

Ela mede o fogo
pela alma
.
Faz uma trança de riso
Em vez de lágrima
.
Tece o amor que tem
até aos outros
.
Troca o espírito e a paz
pela coragem
.
Ela teima na esperança
e volta ainda
.
Retoma o fio de prumo
com que traça
.
A linha da vida
que assume
.
Dispondo do avesso
até à face
.
Ela põe e repõe
o seu destino
.
Vai mais longe
naquilo que disfarça
.
Ela ousa o coração
e reafirma
.
Bordando o arco-íris
do que é frágil
.
Maria Teresa Horta
Fotografia encontrada na net

terça-feira, fevereiro 02, 2010

A FLOR DE AMENDOEIRA




De uma beleza singela

e brancura imaculada,

a flor de amendoeira

de rosa púrpura raiada,

torna o campo uma aguarela

quando floresce, altaneira.


Baby

Foto de Baby

terça-feira, janeiro 19, 2010

CANÇÃO



Canção

Tu eras neve.
Branca neve acariciada.
Lágrima e jasmim
no limiar da madrugada.
Tu eras água.
Água do mar se te beijava.
Alta torre, alma, navio,
adeus que não começa nem acaba.

Eras o fruto
nos meus dedos a tremer.
Podíamos cantar
ou voar, podíamos morrer.

Mas do nome
que maio decorou,
nem a cor
nem o gosto me ficou.
Eugénio de Andrade
Foto encontrada na net

quinta-feira, janeiro 07, 2010

LUAR

Agora que tu chegaste
e o Novo Ano também
põe a minha mão na tua
acerta o passo com o meu
e vamos a pé para a lua
mergulhar na luz que ela tem...

domingo, dezembro 13, 2009

E JESUS PERGUNTOU




Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau
Do perú, das rabanadas.
.
-Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!
.
-Está bem, eu sei.
-E as garrafas de vinho?
.
-Já vão a caminho!
.
-Oh mãe, estou pra ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?
.
-Não sei, não sei...
.
Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus -Menino
Murmura baixinho:
.
-Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
.
Senta-se a família à volta da mesa.
Não há sinal da cruz
Nem oração ou reza.
.
Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio
Cá dentro tão quente!
.
Algures, esquecido
Ouve-se Jesus dorido:
-Então e Eu?
Toda a gente Me esqueceu?
.
Rasgam-se os embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papéis
Sem regras sem leis.
E Cristo-Menino
-A fazer beicinho:
Toda a gente Me esqueceu
Foi a festa do Meu Natal
E do princípio ao fim
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!
.
Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto, no fechar da luz:
-Foi este o Natal de Jesus?

João Coelho dos Santos
in Lágrima do mar.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

CREPÚSCULO


Também este crepúsculo nós perdemos.
Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.
.
Olhei da minha janela
a festa do poente nas encostas ao longe.
.
Às vezes como uma moeda
acendia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.
.
Eu recordava-te com a alma apertada
por essa tristeza que tu me conheces.
.
Onde estavas então?
Entre que gente?
Dizendo que palavras?
Porque vem até mim todo o amor de repente
quando me sinto triste e te sinto tão longe?
.
Caiu o livro em que sempre pegamos ao crepúsculo,
e como um cão ferido rodou a minha capa aos pés.
.
Sempre, sempre te afastas pela tarde
para onde o crepúsculo corre apagando estátuas.

Pablo Neruda
in Vinte Poemas de Amor
e
Uma Canção Desesperada

Foto encontrada na net

quarta-feira, novembro 25, 2009

PALAVRAS, PALAVRAS


Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas, que esperam por nós
E outras frágeis, que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens, palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição
.
Entre nós e as palavras, surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor
.
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita
.
Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.


Mário Cesariny


Foto encontrada na net

quarta-feira, novembro 18, 2009

DESALENTO


Eu faço versos como quem chora
De desalento...de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa...remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
.
-Eu faço versos como quem morre.

Manuel Bandeira

sexta-feira, novembro 06, 2009

SEM DESCOBRIRMOS A COR


Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
Se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.



Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.
Maria Teresa Horta

Foto encontrada na net

segunda-feira, outubro 26, 2009

À FLOR DE UM VIDRO


O tempo passa à flor dum vidro
transparente de angústias, de alegrias,
desfeito em silêncios, em ausências.
.
Só nos sustenta a frescura lhana
das manhãs, a brisa apolínea dos estios,
porque buscamos a nudez, a despojada luz
o sonho rupestre persistente das origens.

Vieira Calado
Imagem encontrada em: timblindim.wordpress.com

segunda-feira, outubro 19, 2009

NADA SE PERDE VERDADEIRAMENTE

"...E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."
Miguel Sousa Tavares

sábado, outubro 10, 2009

ENCONTRO COM A VIDA



Este é o tempo de desatar os nós
Soltar as pontas já rasgadas
No uso repetido de tantas despedidas.

É o tempo de esvaziar os olhos
Da imagem de outros olhos
E das coisas que eles viram para lá das permitidas

É tempo de emudecer as palavras
Para que não escute
Sequer o som da minha voz

De esvaziar a cabeça de memórias
Dos tempos feitos de demoras
E das conversas caladas entre nós

Deixar que a mente assim liberta
Possa enfim traçar o rumo de outra estória
Onde o novo se encontre com a vida.
Imagem tirada da net.

sexta-feira, outubro 02, 2009

ERROS


Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar.
Clarice Lispector


Imagem tirada daqui http://nusingular.blogspot.com/2005_10_01_archive.html



Rosas

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