"...E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
"...E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.


As palavras que te envio são interditas
Quando desembarquei da minha viagem sem destino certo, deparei com um lugar sem nome, onde o ar era de tal modo rarefeito que me sufocava lentamente e o céu tinha uma cor indefenida

Pergunta-me
Se ainda és o meu fogo
Se acendes ainda
O minuto de cinza
Se despertas
A ave magoada
Que se queda
Na árvore do meu sangue
Pergunta-me
Se o vento não traz nada
Se o vento tudo arrasta
Se na quietude do lago
Repousaram a fúria
E o tropel de mil cavalos
Pergunta-me
Se te voltei a encontrar
De todas as vezes que me detive
Junto das pontes enevoadas
E se eras tu
Quem eu via
Na infinita dispersão do meu ser
Se eras tu
Que reunias pedaços do meu poema
Reconstruindo
A folha rasgada
Na minha mão descrente
Qualquer coisa
Pergunta-me qualquer coisa
Uma tolice
Um mistério indecifrável
Simplesmente
Para que eu saiba
Que queres ainda saber
Para que mesmo sem te responder
Saibas o que te quero dizer.
De Mia Couto-1955
Em nome da tua ausência



...Que minha solidão me sirva de companhia
que eu tenha a coragem de me enfrentar
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Clarice Lispector
Fotografia tirada da net


Fotografia de Sónia Cristina Carvalho (Olhares)





O SILÊNCIO
Ilha
Nada sobressai tanto, nem permanece tão firmemente fixo na memória, como algo em que tenhamos falhado.



Era aqui que eu queria estar, sobre um palco colorido, rodopiando ao som de uma valsa de Strauss! Sem stress, sem mil e um compromissos que me afastaram de todos vós durante longos dias.
Sei, no entanto, que me vão desculpar porque todos sabemos que nem sempre conseguimos que tudo corra à medida dos nossos desejos.
Com relativo atraso... aqui vos deixo algumas fotografias da minha viagem, cuja lembrança guardarei, não só pela beleza dos locais visitados e da excelência do navio, Adventure of the Seas, mas também e especialmente pelos companheiros de viagem que foram duma simpatia e camaradagem ímpares.
Só por isso, valeu a pena.




É a manhã cheia de tempestade
no coração do verão.
.
Como lenços brancos de adeus viajam as nuvens
que o vento sacode com viageiras mãos.
.
Inumerável coração do vento
pulsando sobre o nosso silêncio apaixonado.
.
Zumbindo entre as árvores, orquestral e divino,
como uma língua cheia de guerras e de cantos.
.
Vento que leva em rápido roubo a ramaria
e desvia as flechas latentes dos pássaros.
.
Vento que a derruba em onda sem espuma
e substância sem peso, e fogos inclinados.
.
Despedaça-se e submerge o seu volume de beijos
combatido na porta do vento de verão.
Do livro Vinte Poemas de Amor
e
Uma Canção Desesperada
de PABLO NERUDA

