quinta-feira, novembro 04, 2010

AMANHÃ

Amanhã

o amor virá ao meu encontro
exuberante de paixão
e de desejos incontidos.
Chegará com a aurora
envolto em sua rubra cor
e ao tocar-me o coração
o dia romperá, numa explosão,
mostrando todo o seu esplendor!

Gritarei teu nome
sobre a terra frágil
e lumes se acenderão
trespassando o espaço
que até então nos separara.
Tu virás com teus olhos mudos
e  teus braços abertos
e me prenderás no teu abraço.

Mil aves enfeitarão os céus
resplandecendo sob a luz do sol
e as palavras brotarão em nós
como murmúrios renascidos
que subirão de tom
como asas que se abrem
para o seu primeiro voo,
impulsionadas por melodioso som.

Imagem colhida na net

quarta-feira, outubro 27, 2010

ROSEIRAL


                                Foi para ti que criei as rosas.

                                  Foi para ti que lhes dei perfume.

                                 Para ti rasguei ribeiros

                                  e dei às romãs a cor do lume.
          
Eugénio de Andrade



terça-feira, outubro 12, 2010

À RÉDEA SOLTA


Nunca mais a busca angustiada de palavras
que dancem com a rima
num ritmo alucinado.

Seu mundo é à rédea solta
sem métrica nem significado.
Respirando poesia
e voando sem escolta,
são presa fácil do louco
que as arruma,
pouco a pouco
ao sabor do seu sentir.

O que sabem as pessoas
dos versos que os loucos fazem?
são uma mistura tamanha
de alegrias e ais sentidos
de momentos de ilusão
e amores incompreendidos
de beijos leves e doces
e guerras sem fim à vista.

De horas de desalento
e palavras de paixão
de uma doçura envolvente
mas que matam sem ter dó,
outros loucos que à partida,
esquecem completamente
que as palavras dum poema
são uma verdade fingida

Foto da Web

domingo, outubro 03, 2010

PAIXÃO

Um olhar trocado
uma palavra não dita
um gesto sonhado
um sorriso esboçado
e quase escondido
e eis que no peito
um alvoroço se instala
e o coração dispara
e bate de um jeito
que o sangue enlouquece
e ondula nas veias
como seara batida
pelos ventos de leste

E são olhos que riem
sonhos que renascem
mãos que procuram
bocas que prometem

É a paixão que desponta
cá dentro da gente
e nos faz sentir
como se do mundo
fossemos o centro

Imagem da web

sábado, setembro 25, 2010

SOU UM SER

"Sou uma filha da natureza:

quero pegar, sentir, tocar, ser.

E tudo isso já faz parte de um todo,

de um mistério.

Sou uma só... Sou um ser.

E deixo que você seja. Isso lhe assusta?

Creio que sim. Mas vale a pena.

Mesmo que doa. Dói só no começo."


Clarice Lispector

Foto da web

segunda-feira, setembro 20, 2010

RIO DE PALAVRAS


Surdo, Subterrâneo Rio


Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.


Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?


Eugénio de Andrade

Imagem da web

terça-feira, setembro 14, 2010

NA SOMBRA DOS TEUS DEDOS




Na sombra dos teus dedos
adormeço.

Bato à porta dos sonhos e
estremeço
no calor da tua boca,
sufoco no teu beijo e
desfaleço
fremente como um pássaro
que voa sem ter asas.

E perco-me.

Como um rio sem margens,
vagueio sem ter norte
mergulhada na lembrança
dum tempo esvaziado
onde a vertigem das horas
consumia os dias
e as noites se acendiam
até chegar a alvorada.

Foto encontrada na net

segunda-feira, setembro 06, 2010

NA HORA DO SILÊNCIO


Esta casa tão vazia
Enche-se de penumbra e de tristeza
Quando o sol em agonia
 Tinge tudo de beleza 
Com as cores do entardecer.

É na hora do silêncio
Quando o ambiente se dilui
E a noite principia
Que a tua ausência se mostra, seminua,
Iluminando tudo à volta
Como se em vez de sombra
fosse lua.

Tento ignorá-la, mas em vão,
Insidiosa,
Envolve-me em seus braços de algodão 
E embala-me no colo,
Terna e caridosa,
Cantando-me baixinho,
Até eu adormecer.

Imagem recolhida na net.

quarta-feira, agosto 25, 2010

DESENCONTROS


Este é o amor das palavras demoradas
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve encontro com a vida



Poema BREVE ENCONTRO
de
Sophia de Mello Breyner Andresen
in O NOME DAS COISAS
Imagem encontrada na net

segunda-feira, agosto 16, 2010

POEMA DA NOITE




A noite avoluma-se

Mergulhada em sombras,

Povoada de medos

E de lembranças acesas,

De bocas exangues

Escorrendo palavras,

De olhos vazios

Querendo enxergar.



É na noite escura

Que o sono se perde

Nas curvas da insónia,

Que as horas se alongam

No chão das memórias,

Que os sonhos se inventam

E no peito se acolhem

Como uma semente que quer germinar.


Foto encontrada na net.

segunda-feira, agosto 09, 2010



A amizade é um amor que nunca morre.

                                 Mário Quintana


                               Imagem encontrada na net

segunda-feira, julho 26, 2010

PORTA FECHADA


Num canto perdido em mim

Guardo os beijos que ensaiei

Nas noites quietas, sem fim

E as palavras que inventei

E te queria dizer

Numa manhã de esperança,

Cheirando ao pólen das flores.



Mas à tua porta fechada

Foram perdendo o esplendor,

O viço, a alma e a cor.

Morreram sem dizer nada

Os ecos do meu passado,

Porque a manhã perfumada

Não chegou a acontecer.

Foto encontrada na net

terça-feira, julho 20, 2010

O MUNDO É UMA MARAVILHA


Procura a maravilha.


Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.


No brilho redondo
e jovem dos joelhos.


Na noite inclinada
de melancolia.


Procura.


Procura a maravilha.

Assim diz Eugénio de Andrade
Imagem encontrada na net

domingo, julho 04, 2010

O RUMOR DA ONDA


Soneto do amor difícil


A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa...


Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.


Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.


E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.

               David Mourão-Ferreira
Imagem encontrada na web


sábado, junho 26, 2010

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.


No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.


Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.


Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.


Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha

Eugénio de Andrade

Foto encontrada na web.

terça-feira, junho 15, 2010

CASULO

Abro as portas ao silêncio
Para calar os gritos que não solto,
Para diluir as lágrimas que não choro
E que inundam a transparência líquida dos meus olhos.

Navego então na solidão do meu vazio
Surda aos sons abafados pelo nada,
Cega às cores que fluem, transitórias,
Fechada às lembranças que me assolam
No frio cortante de cada madrugada.

E fico assim, fechada num casulo,
Esperando ganhar asas
Quando um vento, por destino, aqui passar
E num gesto solidário me empurrar
Deixando-me a navegar de novo
No mar aberto dos sentidos.

Foto encontrada aqui  http://www.h2art.com.br/portfolio/3d/casulo02.jpg

terça-feira, junho 08, 2010

DUNAS



Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.


Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano, desolado,
E pergunto porquê, porque razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão.

Miguel Torga

Imagem da web

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domingo, maio 30, 2010

BARQUINHO DE PAPEL

Nesta manhã de céu azul, fui à praia e o azul do céu fazia mais azul o azul do mar...então fiz um barquinho de papel igual aos que fazia quando era criança e resolvi carregá-lo com mil recordações que me pesavam na alma e sentindo-me mais leve, corri a lançá-lo à água, enquanto me vinha à lembrança o belíssimo poema de 

CECÍLIA MEIRELES :


Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar


Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.


O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...


Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.


Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.


Imagem da Web

sábado, maio 22, 2010

SAUDADES QUE SABEM RIR


Existem saudades que sabem rir. São as minhas preferidas. Algumas, nascem sabendo. Outras aprendem, depois de transformar o choro.


Como borboletas, voam pelos jardins da memória, abraçam as lembranças mais viçosas, e saboreiam o néctar, sempre disponível, das alegrias perenes.'”

Ana Jácomo

Imagen da web_

segunda-feira, maio 17, 2010

A MINHA RUA

Mudei o nome à minha rua
que antes de bulício se enfeitava
e hoje me aparece sempre nua,
despida de alegria,
indiferente às vozes de quem passa
e à luz que a acaricia,
quando a lua se mostra,
branca e fria.

Com o nome,
foi também o perfume que ela tinha
e a graça que exibia,
essa rua que é a minha,
quando o sol
por lá entrava.

Chamei-a de rua triste,
porque os passos que a alegravam
e a faziam tão festiva,
já não soam na calçada
e há um silêncio que persiste
nas pedras inexpressivas.


quarta-feira, maio 12, 2010

AMARGURA


Eu não tinha este rosto de hoje,

Assim calmo, assim triste, assim magro,

Nem estes olhos tão vazios,

Nem o lábio amargo.



Eu não tinha estas mãos sem força,

Tão paradas e frias e mortas;

Eu não tinha este coração

Que nem se mostra.



Eu não dei por esta mudança,

Tão simples, tão certa, tão fácil:

- Em que espelho ficou perdida

A minha face?


Cecilia Meireles
Imagem encontrada na net

terça-feira, maio 04, 2010

UM DIA ESPECIAL



Mais logo, quando acordar,
Quero ser um girassol
E rodar o dia inteiro
Sempre virada para o sol,
Quero brilhar contra o céu
E absorver toda a luz
Que o sol tiver p'ra me dar...

E quando a noite chegar
E eu me deitar na cama,
Serei tocha, serei chama
P'a meus sonhos enxergar...

Foto da web.

terça-feira, abril 27, 2010

MEDO


Tu tens um medo:

Acabar.

Não vês que acabas todo o dia.

Que morres no amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que te renovas todo o dia.

No amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que és sempre outro.

Que és sempre o mesmo

Que morrerás por idades imensas.

Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.



Cecilia Meireles
 
Photo Credit Bina Sveda  (encontrada a net)

quinta-feira, abril 15, 2010

INQUIETUDE

Uma inquietude me assola
E me incendeia o olhar.
É a tua voz que ouço
Ou o meu coração a falar?
.
O meu relógio, calado,
Olha os ponteiros sem horas,
Porque o tempo está parado
E se derrama, alucinado,
No nada que à volta existe.
.
Uma inquietude me assola.
Um silêncio que persiste.
.

quinta-feira, abril 08, 2010

COISAS DO AMOR


SE
Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Foto encontradaa net

domingo, março 28, 2010

VOLTAR

Eu quis amanhecer
limpa e renovada
sem feridas abertas
e sem uma só mágoa recalcada,
nem que para isso tivesse que ser rio
e ser levada até ao mar,
p'ra lá ficar a vaguear
até que o sal tudo sarasse
e eu deixasse de ter frio
de manhã, ao acordar.
.
Nessas águas estendi o rol da minha vida
e deixei que se afundassem
as memórias mais pesadas,
salvando apenas uma ou mais sentida
que embrulhei no azul daquele mar
e que vou levar comigo,
como lembrança estremecida,
para saber quem sou
e para onde vou,
de manhã, ao acordar.
.
E quando por fim amanheceu,
foi aquela cor azul
que inundou o meu olhar
e me trouxe de volta até aqui,
onde sempre foi e será o meu lugar.
Fografia encontrada na net em
persefone-hades.blogspot.com

quarta-feira, março 10, 2010

EM BUSCA DO AMANHECER

Vou em busca de um amanhecer
sereno e de neblina vestido
onde encontre o meu verdadeiro ser
e a vida volte a ter sentido.
Não sei o tempo que vou demorar
nem sequer se vou voltar,
as viagens ao interior do eu
são sempre imprevisíveis.
Mas os amigos que aqui fiz
estarão sempre comigo.
Imagem da net

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

RENOVAÇÃO


Hoje acordei assim
Leve linda e livre
Querendo enfrentar a vida
E meus sonhos renovar
.
E serei asa
E grão
E rio também
Serei o verde dos campos
E flor ainda em botão
Serei árvore
Serei sombra
E fruto sabendo a pão
Serei chama
E também vento
Serei a luz do luar
Serei chuva
E depois água
Serei barco
Serei vela
Serei guerra
Até encontrar a paz.
Fotografia encontrada na net

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

MULHER

Ela mede o fogo
pela alma
.
Faz uma trança de riso
Em vez de lágrima
.
Tece o amor que tem
até aos outros
.
Troca o espírito e a paz
pela coragem
.
Ela teima na esperança
e volta ainda
.
Retoma o fio de prumo
com que traça
.
A linha da vida
que assume
.
Dispondo do avesso
até à face
.
Ela põe e repõe
o seu destino
.
Vai mais longe
naquilo que disfarça
.
Ela ousa o coração
e reafirma
.
Bordando o arco-íris
do que é frágil
.
Maria Teresa Horta
Fotografia encontrada na net

terça-feira, fevereiro 02, 2010

A FLOR DE AMENDOEIRA




De uma beleza singela

e brancura imaculada,

a flor de amendoeira

de rosa púrpura raiada,

torna o campo uma aguarela

quando floresce, altaneira.


Baby

Foto de Baby

terça-feira, janeiro 19, 2010

CANÇÃO



Canção

Tu eras neve.
Branca neve acariciada.
Lágrima e jasmim
no limiar da madrugada.
Tu eras água.
Água do mar se te beijava.
Alta torre, alma, navio,
adeus que não começa nem acaba.

Eras o fruto
nos meus dedos a tremer.
Podíamos cantar
ou voar, podíamos morrer.

Mas do nome
que maio decorou,
nem a cor
nem o gosto me ficou.
Eugénio de Andrade
Foto encontrada na net

quinta-feira, janeiro 07, 2010

LUAR

Agora que tu chegaste
e o Novo Ano também
põe a minha mão na tua
acerta o passo com o meu
e vamos a pé para a lua
mergulhar na luz que ela tem...

domingo, dezembro 13, 2009

E JESUS PERGUNTOU




Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau
Do perú, das rabanadas.
.
-Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!
.
-Está bem, eu sei.
-E as garrafas de vinho?
.
-Já vão a caminho!
.
-Oh mãe, estou pra ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?
.
-Não sei, não sei...
.
Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus -Menino
Murmura baixinho:
.
-Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
.
Senta-se a família à volta da mesa.
Não há sinal da cruz
Nem oração ou reza.
.
Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio
Cá dentro tão quente!
.
Algures, esquecido
Ouve-se Jesus dorido:
-Então e Eu?
Toda a gente Me esqueceu?
.
Rasgam-se os embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papéis
Sem regras sem leis.
E Cristo-Menino
-A fazer beicinho:
Toda a gente Me esqueceu
Foi a festa do Meu Natal
E do princípio ao fim
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!
.
Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto, no fechar da luz:
-Foi este o Natal de Jesus?

João Coelho dos Santos
in Lágrima do mar.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

CREPÚSCULO


Também este crepúsculo nós perdemos.
Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.
.
Olhei da minha janela
a festa do poente nas encostas ao longe.
.
Às vezes como uma moeda
acendia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.
.
Eu recordava-te com a alma apertada
por essa tristeza que tu me conheces.
.
Onde estavas então?
Entre que gente?
Dizendo que palavras?
Porque vem até mim todo o amor de repente
quando me sinto triste e te sinto tão longe?
.
Caiu o livro em que sempre pegamos ao crepúsculo,
e como um cão ferido rodou a minha capa aos pés.
.
Sempre, sempre te afastas pela tarde
para onde o crepúsculo corre apagando estátuas.

Pablo Neruda
in Vinte Poemas de Amor
e
Uma Canção Desesperada

Foto encontrada na net

quarta-feira, novembro 25, 2009

PALAVRAS, PALAVRAS


Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas, que esperam por nós
E outras frágeis, que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens, palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição
.
Entre nós e as palavras, surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor
.
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita
.
Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.


Mário Cesariny


Foto encontrada na net

quarta-feira, novembro 18, 2009

DESALENTO


Eu faço versos como quem chora
De desalento...de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa...remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
.
-Eu faço versos como quem morre.

Manuel Bandeira

sexta-feira, novembro 06, 2009

SEM DESCOBRIRMOS A COR


Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
Se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.



Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.
Maria Teresa Horta

Foto encontrada na net

segunda-feira, outubro 26, 2009

À FLOR DE UM VIDRO


O tempo passa à flor dum vidro
transparente de angústias, de alegrias,
desfeito em silêncios, em ausências.
.
Só nos sustenta a frescura lhana
das manhãs, a brisa apolínea dos estios,
porque buscamos a nudez, a despojada luz
o sonho rupestre persistente das origens.

Vieira Calado
Imagem encontrada em: timblindim.wordpress.com

segunda-feira, outubro 19, 2009

NADA SE PERDE VERDADEIRAMENTE

"...E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."
Miguel Sousa Tavares

sábado, outubro 10, 2009

ENCONTRO COM A VIDA



Este é o tempo de desatar os nós
Soltar as pontas já rasgadas
No uso repetido de tantas despedidas.

É o tempo de esvaziar os olhos
Da imagem de outros olhos
E das coisas que eles viram para lá das permitidas

É tempo de emudecer as palavras
Para que não escute
Sequer o som da minha voz

De esvaziar a cabeça de memórias
Dos tempos feitos de demoras
E das conversas caladas entre nós

Deixar que a mente assim liberta
Possa enfim traçar o rumo de outra estória
Onde o novo se encontre com a vida.
Imagem tirada da net.

sexta-feira, outubro 02, 2009

ERROS


Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar.
Clarice Lispector


Imagem tirada daqui http://nusingular.blogspot.com/2005_10_01_archive.html



terça-feira, setembro 22, 2009

CAMINHOS


Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!

Fernando Pessoa
Imagem da net

domingo, setembro 13, 2009

SOL ARDENTE



Por onde
a dor da tua ausência,
a mudez dos silêncios
o eco surdo das palavras
desfeitas na garganta?
.
Hoje
a plenitude de um sol ardente
que me dourava a pele e os sonhos
uma brisa leve,
tão leve como seda pura
.
E a música que escorria lenta
e se transformava em ondas
abrindo atalhos no meu peito
tão perfeitos e profundos
que o mar, ali tão perto,
me fez água
.
E com ele murmurei OHMMMMM...
Imagem da net

quinta-feira, setembro 03, 2009

PALAVRAS INTERDITAS

As palavras que te envio são interditas

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
Eugénio de Andrade

Imagem da net

terça-feira, agosto 25, 2009

PENSAMENTOS

Timidez
Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...
- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...
e um dia me acabarei.
Cecília Meireles
Foto tirada da net

quarta-feira, agosto 12, 2009

FLORESTA DE PALAVRAS

Quando desembarquei da minha viagem sem destino certo, deparei com um lugar sem nome, onde o ar era de tal modo rarefeito que me sufocava lentamente e o céu tinha uma cor indefenida
que aos poucos se ia tornando cor de sangue, o mesmo sangue que do meu coração vazava, ferido pelas dores que dia após dia eu sofria, enquanto ia perdendo um ente muito querido.
Agora quero que o meu pensamento se liberte e voe alto, muito alto, se inunde de beleza e tranquilidade e depois mergulhe em voo picado numa floresta densa, feita de pavras.

"Entrei pelas palavras como quem entra numa floresta densa à procura de espécies raras;
escolhia umas, afastava outras, mas algumas que escolhia, logo deitava fora, tão anónimas e sem carácter se mostravam depois. Às escondidas ia-as pondo juntas umas às outras, ora cruzadas, ora paralelas, como quem faz um muro e prefere umas pedras às outras para as casar conforme o volume e o ângulo delas.
Pouco a pouco fui encontrando ao acasol (ao acaso?),como numa revelação misteriosa, palavras raras, preciosas, brilhantes ou sombrias, umas ricas, outras pobres, sonoras ou mudas, mas todas intimamente ligadas por qualquer laço comum, como se entre elas houvesse uma predestinação ou qualquer liame invisível que as prendesse. E logo que as juntava ficavam tão unidas umas às outras que já não parecia mais possível desligá-las, tão estranhamente fundidas que cada uma perdia aquilo que antes a distinguia, para todas encontrarem nessa transmutação uma nova expressão, feita de sons, a princípio vagos, sussurrantes como num búzio, mas logo depois tomando formas musicais, ainda que entrecortadas e incompletas como os instrumentos que os músicos afinam antes de a orquestra começar um concerto.
Às vezes, caprichosamente, uma ou outra palavra fugia, escondia-se no grande cemitério das palavras mortas; e era preciso procurá-la, adivinhá-la, encontrá-la e pô-la no seu lugar próprio, ainda vazio, que só a ela pertencia. Era preciso procurá-la amorosamente, como o garimpeiro nas águas do rio busca a pepita refulgente. E assim, na densa floresta das palavras, pude escolher essa matéria prima a que o sonho deu a transcendência da criação da própria vida."
in Pablo La Noche - Marcello Matias
Imagem da net.

segunda-feira, julho 20, 2009

FÉRIAS


Vou de férias, só me falta descobrir até onde me levará esta ferrovia...
Sejam felizes, divirtam-se neste Verão.
Imagem tirada da net

domingo, julho 12, 2009

PERGUNTA-ME


Pergunta-me
Se ainda és o meu fogo
Se acendes ainda
O minuto de cinza
Se despertas
A ave magoada
Que se queda
Na árvore do meu sangue

Pergunta-me
Se o vento não traz nada
Se o vento tudo arrasta
Se na quietude do lago
Repousaram a fúria
E o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
Se te voltei a encontrar
De todas as vezes que me detive
Junto das pontes enevoadas
E se eras tu
Quem eu via
Na infinita dispersão do meu ser
Se eras tu
Que reunias pedaços do meu poema
Reconstruindo
A folha rasgada
Na minha mão descrente

Qualquer coisa
Pergunta-me qualquer coisa
Uma tolice
Um mistério indecifrável
Simplesmente
Para que eu saiba
Que queres ainda saber
Para que mesmo sem te responder
Saibas o que te quero dizer.


De Mia Couto-1955

sábado, julho 04, 2009

EM NOME DE

Em nome da tua ausência
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei

Sophia de Mello Breyner Andresen
Imagem da net (óleo sobre tela)



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