domingo, março 08, 2015

PARA TI, MULHER

 MULHER


Mulher,
Nasceste para ser asa
Ou uma simples flor,
Mas a sorte fez-te casa,
Fez-te arrumo,
Fez-te colo,
Colo que dás na desgraça,
Na alegria ou na dor,
Tu és alguém que te entregas
Por dentro e também por fora,
Sem receberes nada em troca.
Tu és rochedo que sente,
Que ri, que sofre e que chora,
Tu és presença constante
Onde e quando alguém te chama.
Tens o dom de gerar vida
Que alimentas no teu seio
E cuidas, estremecida,
Até a soltar no mundo
Para de alguém ser arreio.

Porquê então te maltratam
Te magoam e te batem
Para deixares de ser quem és?
Deixas de ser rochedo
Para ser apenas medo
E morres devagarinho
Em absoluto desrespeito
Até acabares de vez
Com uma facada no peito.


Foto encontrada net

segunda-feira, novembro 03, 2014

COMO UM BÚZIO


Sou como um búzio na areia
Pintalgado de incertezas
E prenhe de sons longínquos
Que me veem das memórias
Das vidas que já vivi
E amanhã talvez seja
Uma vela solta ao vento,
Correndo célere no mar,
Enfunada pela esperança
De no teu cais aportar.

Mas um dia sei que vou ser
Uma casa toda branca
Aberta de par em par
Aos sons e cheiros trazidos
Pela brisa que vem do mar.
Nessa casa serei tudo:
Serei pedra de jardim
Onde flores brotarão,
Serei meu chão de lembranças,
Mil janelas que deixem o sol entrar.
Serei arquitecto dos sonhos
Que ainda quero realizar,
Serei porta sempre aberta
Se vieres para ficar.


domingo, outubro 19, 2014

DESENCONTRO



Busco-te
nas madrugadas insones,
na claridade radiosa das manhãs,
ao sol do meio dia,
quando as sombras são curtas,
quase inexistentes.

Busco-te
nas tardes que declinam serenas
numa explosão de cor
e embriago-me na profusão
de  laranjas e vermelhos
que se entrelaçam
numa dança fluida e sedutora.

E nesse torpor extático,
Mergulho no mais profundo de mim
e aquieto-me,
pois é lá que afinal
te encontro,
lá, onde te guardo desde sempre
e onde te perco,
se no escuro te desencontro.

Tomada pela inquietação
que a tua ausência me provoca,
percorro o reverso de mim
e recomeço a minha busca incessante
numa madrugada sem fim.


sábado, outubro 04, 2014

DEPOIS DO SILÊNCIO


Um silêncio pesado
deixa-me fatigada,
frágil,
desligada.
Mas a tua lembrança
Chega como um rumor,
Faz-se zumbido
Até que um grito irrompe
E rasga a quietude
Da minha boca amordaçada.

E as palavras nascem
A medo e soletradas.
Fazem-se muitas
E tornam-se alinhadas.
Escrevem o teu nome,
Ganham ritmo e asas
e partem com o vento,
soltas e apressadas,
como um bando de pássaros
em busca de alimento.

Imagem colhida na net

quinta-feira, maio 15, 2014

NA TUA BOCA




Na tua boca adivinho
Tudo aquilo que não digo:
Amor, amar, água, pão,
Beijos, rosas e rios,
Leito, riso, esplendor,
Um cais, um barco
E o nosso amor.

No teu peito, um coração.
No meu, uma nascente
Onde a loucura mora
E o sol empalidece,
Onde a vida se renova
E a palavra amadurece
Como criança inocente.

Tu e eu somos só um,
Somos chão e somos mar,
A luz branca duma lua,
Somos voz duma guitarra,
No aconchego de uma ilha,
Somos rio que se desgarra
Num caudal de maravilha.


Foto encontrada na net 

quinta-feira, janeiro 30, 2014

ALIENAÇÃO

Sonhei
que um dia me trarias
na tua mão a lua
para que nunca mais
houvesse entre nós
escuridão.
Esperei,
sem nunca duvidar,
que um dia
veria a ternura
inundar o teu olhar
quando no escuro,
buscasses a luz do meu,
para te guiar.
Acreditei,
que para ti
era uma ilha
que escolheras para morar,
uma ilha
onde aportavas, cada dia,
voando como um pássaro
sobre o azul do nosso mar.

Mas a lua continua
longe e indiferente
e a sua luz tão fria
não rompeu a escuridão.
Faz lembrar o teu olhar
quando olha para mim
sem sequer me vislumbrar.
E a ilha
que eu julgava ser
não passava de ilusão.
Não tinha margens nem chão,
Era apenas e somente
fruto de alienação.

domingo, novembro 24, 2013

AS PALAVRAS


de Eugénio de Andrade:

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho, apenas.

Secretas, vêm, cheias de memória.
Inseguras, navegam:
barcos ou beijos, as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem 
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Imagem colhida net


quarta-feira, outubro 30, 2013

DE SAUDADES E DE VIDA


DE SAUDADES E DE VIDA

Tenho saudades da vida
Da vida que me perdeu
Ou que em mim andou perdida
Rasgando-me o corpo e a alma
Em busca de uma saída.
Deixou-me uma cratera no peito
Onde me escondo ao deitar
Num leito feito de sombras
Por onde passam lembranças
Que eu teimo em não recordar.
Há um perfume de ternura
de um amor que não vingou
há palavras decepadas
num verso que não  rimou.
E há a saudade que morde
Com um toque de amargura.


Imagem obtida na net

terça-feira, junho 18, 2013

O MAR POR COMPANHIA



O MAR POR COMPANHIA

Tinha o mar por companhia
e o céu como horizonte.
Estava aberta aos sons cadenciados e ondulantes
das vagas altas que aos meus pés morriam
e os meus sentidos despertavam
quando a espuma branca me tocava
e a pele me estremecia.

Tinha ânsia de partir
e uma vontade escondida de ficar
na esperança que voltasses
atraído pelo cheiro desta saudade rasgada
que no meu peito ficou
depois da tua partida.

Oiço o grito derradeiro
que uma gaivota desenha
no seu voo solitário
riscando o sol que mergulha
e num mar de luz se apaga
enquanto a tua imagem
se acende em mim
como um braseiro. 


Imagem colhida na net

segunda-feira, maio 13, 2013

PROMESSA


PROMESSA


Prometi
que ia esvaziar-me,
arrancar do peito
o desespero, a raiva, a dor que mata,
mas também a indiferença e o torpor,
o nada, que dia a dia se agiganta
e me estrangula como um garrote abrasador.

Prometi
que ia pegar numa caneta
e desenhar mil gotas de água
que me escorressem pelos dedos
como chuva abençoada,
esborratando o traço,
mas apagando do meu chão os medos.

E que depois os versos
brotariam como flores
com as cores da primavera,
e o poema nasceria,
letra a letra,  
feito de quimera e voaria,
como pássaro fugido da gaiola.

segunda-feira, janeiro 28, 2013



AUSÊNCIA



Apartada dos meus sonhos
E dos teus olhos ausente,
Perdi o amor pelas palavras
Que eu usava como espada
Ou como bandeira hasteada,
Mas sempre como semente.


Com elas fazia versos
Cantando os risos e as dores
E a transparência do amor.
Falava do rio que eu era
E do barco à vela que foste,
P'ra me poder navegar.

Abriste sulcos tão fundos
Nas águas do meu sentir
Que a minha voz se partia
E o meu coração sangrava
Sempre que neles caía
Sem vontade de emergir.

Emudeci no poema
Perdi o brilho no olhar.
De rio, passei a deserto
Que percorro devagar
Escalando cada duna
Na ânsia de ver o mar.

quinta-feira, outubro 04, 2012

PARTIDA



Vi-te partir
e a seguir
o sol caiu a meus pés,
o céu rasgou-se
e chorou
até apagar o fogo
que alastrou pelo chão.
Depois o mar engrossou,
rugiu e a terra galgou
para varrer toda a dor
Que a tragédia provocou.

Fui levada e arrastada
quando a onda regressou.

Andei vidas à deriva,
fui barco sem vela no mar,
mar que foi onda,
mas também foi chão,
mar que me embalou
e ajudado pelo tempo,
as minhas feridas sarou,
mar que um dia,
noutra onda,
em terras de Barlavento
eu sei que me vai largar.

quinta-feira, setembro 20, 2012

PARA QUEM GOSTA DE AZUL


Dizem que o azul é uma cor fria, mas a mim inflama-me a imaginação, ao mesmo tempo que me repousa a alma...difícil de entender?

Para quem quiser tê-lo sempre à mão, partilho convosco uma receita de
NUNO JÚDICE
"In Meditação sobre ruínas, 1995"


RECEITA PARA FAZER O AZUL

Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo do metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz__eu, Abraão bem Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé___e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.

quinta-feira, agosto 30, 2012

LUAR DE AGOSTO


As águas da ribeira eram uma esteira de prata
deslizando suavemente para o mar
que pressuroso as absorveu
na ânsia de aumentar o brilho com que o luar de agosto o vestia.
Os meus olhos diluíam-se ao contemplar aquela beleza cintilante
e o muro que me aprisionava desmoronava-se  pedra a pedra
enquanto uma indescritível sensação de paz me envolvia
e me fazia sentir que também eu era um fio de água
percorrendo o seu curso inexorável em direcção ao mar
onde tudo começou e onde tudo pode sempre terminar.

terça-feira, junho 12, 2012

COMO UM FADO

Entraste em minha vida
como um fado que se cumpre. 

Como um rio que chega ao mar,
em ondas sucessivas me tomaste
e aos meus pés ergueste a tua casa
e em mim ficaste.

Imagem da web

segunda-feira, maio 21, 2012

OS TEUS OLHOS





É pelos teus olhos
que eu entro
e num canto vazio
de ti
tomo lugar
e me sento.


Imagem colhida na web

domingo, abril 29, 2012

SONHOS

Sem sonhos,
os monstros que nos assediam,
estejam eles alojados em nossa mente,ou no terreno social,
nos controlarão.

O objectivo fundamental dos sonhos não é o sucesso,
mas nos livrar do fantasma do conformismo.

Quem não é generoso consigo mesmo
jamais o será com os outros.
Quem cobra muito de si mesmo
é um carrasco dos outros.

A generosidade é um dos maiores sonhos
que devemos difundir
no grande "caos social".

Só dorme bem
quem aprende primeiramente
a repousar dentro de si.

É possível fugir dos monstros de fora,
mas não dos que temos dentro da mente.

Os que vendem sonhos
são como o vento:
você ouve a sua voz,
mas não sabe de onde ele vem
e nem para onde vai.

Se  quiserem vender o sonho da solidariedade
terão de aprender a enxergar as lágrimas choradas,
as angústias nunca verbalizadas,
os temores que nunca contraíram
os músculos da face.

Citações do livro "O VENDEDOR DE SONHOS"
de Augusto Cury
Imagem da net

domingo, abril 15, 2012

SILÊNCIO


Porque tudo o que sonhei
se quebrou em querelas
e guerras sem sentido,
porque os caminhos percorridos
são hoje pertença de fantasmas
deambulando na penumbra
do dia amanhecido,
porque as coisas que vivi
se apagaram uma a uma
varridas da memória
num  esquecimento encomendado,
sou agora e apenas, uma sombra 
em busca da palavra amarga ou doce
que defina o porquê
do silêncio dos meus dias.


Imagem de MARIAH-(Olhares)

quarta-feira, março 21, 2012

DIA DA POESIA

Escrevo  amor
e leio um sorriso
no céu da tua boca


Soletro pri ma ve ra
e vejo um imenso campo verde
semeado nos teus olhos


Digo pão
e em cada letra arde um abraço
no fogo da paixão


Sento-me na sombra do teu chão
e bebo o  azul
filtrado pelo sol do meio dia


Pego numa asa do vento
e voo com ela
até ao infinito


Escrevo a palavra poesia
e sou um barco à vela que corta  o mar ao meio
e se esfuma no tempo que é finito.

Foto da net

quinta-feira, março 08, 2012

PARA NÓS, MULHERES

De uma amiga, recebi este poema lindo e tomei a liberdade de o partilhar com todas as mulheres, que, como eu, se sentem hoje mais leves e lindas.


Ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie
de mãos dadas com o ar.
Enfeite-se com margaridas e ternura e escove
a alma com leves fricções de esperança.
De alma escovada e coração estouvado,
saia do quintal
de si mesmo e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para
quem passe debaixo da sua janela.
Ponha intenções de quermesse em seus olhos
e beba licor de contos de fada.
Ande como se o chão estivesse repleto 
de sons de flauta
e do céu descesse uma névoa de borboletas
cada qual trazendo uma pérola falante
a dizer frases subtis
e palavras de galanteria,

Artur da Távola

Rosas

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