Domingo, Julho 12, 2009

PERGUNTA-ME


Pergunta-me
Se ainda és o meu fogo
Se acendes ainda
O minuto de cinza
Se despertas
A ave magoada
Que se queda
Na árvore do meu sangue

Pergunta-me
Se o vento não traz nada
Se o vento tudo arrasta
Se na quietude do lago
Repousaram a fúria
E o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
Se te voltei a encontrar
De todas as vezes que me detive
Junto das pontes enevoadas
E se eras tu
Quem eu via
Na infinita dispersão do meu ser
Se eras tu
Que reunias pedaços do meu poema
Reconstruindo
A folha rasgada
Na minha mão descrente

Qualquer coisa
Pergunta-me qualquer coisa
Uma tolice
Um mistério indecifrável
Simplesmente
Para que eu saiba
Que queres ainda saber
Para que mesmo sem te responder
Saibas o que te quero dizer.


De Mia Couto-1955

Sábado, Julho 04, 2009

EM NOME DE

Em nome da tua ausência
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei

Sophia de Mello Breyner Andresen
Imagem da net (óleo sobre tela)



Quinta-feira, Junho 25, 2009

VARINHA DE CONDÃO


Nem sempre foi um conto de fadas,
mas havia uma varinha de condão
que nas horas de agonia
e com um só toque,
transformava as nossas dores em poesia.
.
E as palavras de que o amor se vestia
voltavam de novo, inteiras
e como abraços,
apegavam-se a nós
como rubras trepadeiras.
.
Mas um dia,
sem qualquer explicação,
perdeste ao jogo
a milagrosa varinha de condão
e nunca mais se fez magia
nem o nosso amor
foi inspiração ou tema
para escrever qualquer poema...
Imagem da net
Desenhada à mão (lápis), por MARIANA

Sexta-feira, Junho 19, 2009

SILÊNCIO

SEM TI
.
E de súbito desaba o silêncio
É um silêncio sem ti,
sem álamos
sem luas
.
Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas...

Eugénio de Andrade
Foto tirada da net

Terça-feira, Junho 09, 2009

DIA PURO



Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
.
Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas

Sofia de Mello Breyner Andresen

Foto de Baby (Costa Vicentina)

Terça-feira, Junho 02, 2009

AUSÊNCIA


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade
Fotografia tiradada da net

Segunda-feira, Maio 25, 2009

AS NOITES


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
.
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
.
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira
Foto tirada net

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