quinta-feira, janeiro 09, 2020

O TEMPO



O cinza que escorre dos meus olhos
Cobre de penumbra o chão onde me sento.
Meu pensamento vagueia, num desnorte
Na garganta, as palavras gritam
E atropelam-se, numa luta de morte.

O tempo escorre, devagar,
mas o silêncio, que, como uma teia, me abraçava
rompeu-se, num estrondo,
o sol acendeu-se no horizonte
e encheu de luz o meu olhar.

Pouco a pouco o céu
Era uma tela colorida
e a tarde partia devagar
Lenta e luminosa,
Numa fogueira de sons e cores ardida.

A noite chega, redonda como um vaso
E nela me deito, para enfim descansar.
As pernas enrolo e as mãos desdobro
Para com elas me tapar.
Regresso a mim mesma, sonho e extravaso.




quinta-feira, novembro 07, 2019

A VIDA

MAGNIFICAT


Ai, a vida!
Quanto mais me magoa, mais a canto.
Mais exalto este espanto
de viver.
Este absurdo humano,
quotidiano,
dum poeta cansado
de sofrer.
E a fazer versos como um namorado,
sem namorada que lhos queira ler.
Cego de luz e sempre a olhar o sol
num aturdido
deslumbramento.
Cada breve momento
recebido
como um dom concedido
que se não merece.
Ai, a vida
Como dói ser vivida
e como a própria dor a quer e agradece!

De Miguel Torga

Imagem colhida na net.

domingo, outubro 06, 2019

COMO PÁSSAROS



Recordo o tempo
Em que de asas nos vestíamos
E ao romper do dia,
Num ímpeto, partíamos,
Esvoaçando na brancura da manhã.

Os dias eram feitos de esplendor,
Quando o amor escorria dos teus olhos,
Como água que brota de uma fonte
E sobre mim se derramava
Como um manto protector.

Eram escassas as palavras murmuradas,
Mas o som da tua voz ainda ecoa em mim
E ondula no meu peito,
Como pássaros deslizando
Em luminosas e quentes alvoradas.

Imagem da net.

quinta-feira, setembro 05, 2019

MADRUGADAS





Preciso romper o silêncio
Que me amordaça
E sem qualquer temor,
Rasgar o meu peito e numa taça
Despejar a minha dor,
Até que ela transborde
E no chão se espalhe
Com um grito acusador.

E no vazio desse peito,
Deixado a descoberto,
As palavras brotarão
Como  madrugadas promissoras,
Haverá grandes alegrias,
Noites calmas e acolhedoras,
E a paz tão desejada
Será a essência dos meus dias.

Imagen da net

terça-feira, julho 09, 2019

ESPERA


Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

De EUGÉNIO DE ANDRADE

Com este poema de Eugénio de Andrade, venho a pedir a todos os que me visitam, um tempo de reflexão, quiçá de amadurecimento. Sinto que não tenho estado suficientemente presente, como merecem!
Espero voltar, como as marés.

Foto colhida na net.

sexta-feira, junho 07, 2019

DE FRENTE PARA O MAR




Este é o tempo de sonhar
E quando me sento, pequenina,
De frente para o mar,
Invento um barco e parto a navegar
De olhos fechados e coração aberto
A tudo o que encontrar.

Não quero saber se é noite ou dia,
Se o vento é forte ou se é mar de calmaria,
Sei que tudo à minha volta 
É uma estrada aberta,
sem metas, nem geografia,
que percorro, em busca de paz e alegria.

De dia o sol é rei e o mar cintila
Com lampejos de azul
que tingem meu olhar.
De noite é a luz da lua
Que me envolve por inteiro
Me ilumina e apazigua.

Para trás ficaram as cinzas
E as sombras que me tolhiam.
Meus olhos limpos,
Acordam devagar
E abrem-se para um mundo novo
E a outros sonhos que nasciam.

Imagem colhida na net


sábado, maio 04, 2019

EM DIA DE ANIVERSÁRIO


SAUDADES


Saudades de quem eu era,
Alegre e inquieta como toda a primavera,
Vivia a vida sem pressa
E da sua seiva me alimentava.

Os dias eram claros e ousados
E na minha ânsia de descobrir o mundo,
Abria de par em par as portas que encontrava,
Para ver o outro lado, com olhar fecundo.

Respirava o interior das coisas
E urdia histórias que depois escrevia,
Com lampejos de cor e toques de magia,
como quem compunha uma melodia.

A vida era uma sucessão de sonhos
E deslizava célere através do tempo,
Riscando o espaço num fluir constante
De amanhãs risonhos.

Mas a chama que alimentava a tocha
Foi perdendo o brilho e morrendo aos poucos
E as cinzas que no fim ficaram



Não passam hoje de uma pequena rocha
De onde brota, às vezes, um resquício de água,
Para que eu mate a sede de subtis memórias.

Imagem obtida na net

Rosas

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