quinta-feira, fevereiro 16, 2012

NEM EU SEI



Tenho o nome duma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que atravessei.
Eugénio de Andrade
Foto da net

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

BAILARINA


POR DELICADEZA

Bailarina fui
Mas nunca dansei*
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dansei* no avesso
Do tempo bailado

Dansarina* fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei

Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado

Bailarina fui
Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse
Também eu direi:

"Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi minha vida"

Poema  POR DELICADEZA in O Nome das coisas
* sic
De Sophia de Mello Breyner Andresen



terça-feira, janeiro 17, 2012

AS CORES DA VIDA

Eu quero que a vida seja 
sempre azul, verde a amarela.

Azul,
quando de manhã bem cedo
eu abro a minha janela.

Verde,
quando eu inspiro
e sinto o cheiro molhado da terra.

Amarela,
quando o sol se acende
e a vida canta vitória.

Foto encontrada na net.

terça-feira, janeiro 03, 2012

DIZ-ME O TEU NOME



Diz-me o teu nome - agora que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão


com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol de neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo ao ouvido,


como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o


nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.


Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim.

Maria do Rosário Pedreira

sábado, dezembro 10, 2011

BOAS FESTAS


São estes os meus votos para todos os amigos da Blogosfera

quinta-feira, novembro 17, 2011

MULHER




ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A MULHER


Elas são as mães: 
rompem do inferno, furam a treva, 
arrastando 
os seus mantos na poeira das estrelas. 

Animais sonâmbulos, 
dormem nos rios, na raiz do pão. 

Na vulva sombria 
é onde fazem o lume: 
ali têm casa. 
Em segredo, escondem 
o latir lancinante dos seus cães. 

Nos olhos, o relâmpago 
negro do frio. 

Longamente bebem 
o silencio 
nas próprias mãos. 

O olhar 
desafia as aves: 
o seu voo é mais fundo. 

Sobre si se debruçam 
a escutar 
os passos do crepúsculo. 

Despem-se ao espelho 
para entrarem 
nas águas da sombra. 

É quando dançam que todos os caminhos 
levam ao mar. 

São elas que fabricam o mel, 
o aroma do luar, 
o branco da rosa. 

Quando o galo canta 
Desprendem-se 
para serem orvalho. 

Eugénio de Andrade
Imagem recolhida na net

quinta-feira, novembro 10, 2011

AMARGURA




Canção amarga

Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
- Importa amar, sem ver a quem...
Ser mau ou bom, conforme os dias.

Agora, tu, só entrevista,
quantas imagens me trouxeste!
Mas é preciso que eu resista
e não acorde um sonho agreste.

Que passes tu! Por mim, bem sei
que hei-de aceitar o que vier,
pois tarde ou cedo deverei
de sonho e pasmo apodrecer.

Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
- Importa amar, sem ver a quem...
Ser infeliz, todos os dias!

David Mourão-Ferreira in "A Secreta viagem"


Imagem colhida na net

terça-feira, outubro 25, 2011

ENXURRADA


Esta noite choveu no deserto que albergo no meu peito
e uma enxurrada varreu meus grãos de areia
pela encosta abaixo do meu corpo
abrindo sulcos obscenos, de uma beleza proibida
e as águas que por eles escorriam
em rio caudaloso se tornaram
arrastando consigo amores que o tempo já esquecera,
dores e alegrias, versos que escrevi,
palavras que guardei e que roubara nos livros que já lera
e erros, tantos erros em que teimosamente persisti,
as respostas que não dei e as perguntas que não fiz,
o choro que na tristeza não chorei,
e os risos que por falta de alegria não soltei.
De todas essas coisas me desfiz.
E nessas águas, que depois da queda se amansaram
eu me deixei afogar,
pois num deserto sem areia
o sol nunca mais volta a brilhar.

Imagem colhida na net

segunda-feira, outubro 10, 2011

UM GESTO DE ASA


DIA



Mergulho no dia como em mar ou seda
Dia passado comigo e com a casa
Perpassa pelo ar um gesto de asa
Apesar de tanta dor e tanta perda

De: Sophia de Mello Breyner Andresen
in  O NOME DAS COISAS

Imagem colhida na net

quinta-feira, setembro 22, 2011

FUGA


É na garganta
que as palavras se atropelam
e as perguntas se debatem
na ânsia de ser feitas,
é lá que tudo se enovela
e um nó de muitas pontas se agiganta
me toma por inteiro e me sufoca

Sorvendo o ar em goles diminutos
mergulho no caos da incerteza
e busco a minha essência
num regresso às origens mais profundas
que procuro sem cessar nas escuras águas
da minha inconsciência.

Sou de novo um embrião
que busca nesse fluido acolhedor
o calor e a segurança que a vida me roubou.
E adormeço, sentindo que sou parte dessa água
onde flutuo, e que o tempo já vivido
não passa de uma sombra que se esfuma.

Imagem colhida na net

terça-feira, setembro 06, 2011



Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

Eugénio de Andrade
Imagem recolhida na net

segunda-feira, julho 25, 2011

NAS CURVAS DO POEMA

Nas curvas do poema
o amor insinua-se como a luz da lua
e desliza nas palavras
até chegar ao novo verso
que por ser novo se entrega por inteiro
nas mãos do poeta controverso
que ora o enfeita com as cores da aurora
ora o faz triste como uma manhã de nevoeiro  


Nas curvas do poema 
cabem palavras como o azul do mar
e o barco verde que o navega
cabem o céu e os pássaros que lá moram
também o sol e a luz que nos aquece
o rio que lava a terra da desgraça
a noite negra que antecede o dia
o vento que sopra e nos devassa
a mulher que chora porque a vida a ludibria
e a flor que morre para que o fruto nasça.


Imagem colhida na net

terça-feira, julho 12, 2011

PEDIDO




Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande.


Adélia Prado
Imagem colhida na net

sábado, junho 25, 2011

SILÊNCIO E SOMBRA



O Silêncio


Quando a ternura 
parece já do seu ofício fatigada, 


e o sono, a mais incerta barca, 
inda demora, 


quando azuis irrompem 
os teus olhos 


e procuram 
nos meus navegação segura, 


é que eu te falo das palavras 
desamparadas e desertas, 


pelo silêncio fascinadas. 

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"
Imagem colhida na net

sexta-feira, junho 10, 2011

COMO ASAS




Quando eu morrer

Quando eu  morrer,não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa

que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me

a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

M.do Rosário Pedreira
Imagem encontrada na net

sexta-feira, junho 03, 2011

MEMÓRIAS VELADAS


PAIRA DESOLADO UM VÉU

Paira desolado um véu de nuvens,
ao declinar da chama que morre pelas tardes.

Acendem-se devagar os ecos do passado,
o lume cortante do hábil sílex transitório,
desde os nossos tetravós da terra rigorosa.

O coar do dia acresce um dízimo fio de água
vindo do mais remoto das profundezas,
para mitigar a nossa sede,
as nossas quotidianas esperanças
noutros esplendores azuis de céus e estrelas.

Mas é tarde para a repetida veleidade
dos vencidos.

Para que são estas quotidianas memórias
senão para acender outras distantes estrelas
e entender o efémero do presente?

Para que é o esplendor de céus azuis
senão para prolongar a eternidade
da luz, escorrendo sobre nós?

E ao declinar da tarde, despimo-nos da fé.

Já não é possível olhar o céu de ontem.

Os nossos filhos também aprendem devagar
com a última passagem dum corpo
sobre a terra.

Poema de VIEIRA CALADO
no livro POR DETRÁS DAS PALAVRAS




segunda-feira, maio 16, 2011

MANHÃ EM TONS DE VERDE



Na quietude do verde
onde o meu olhar se alonga,
reinvento a paz perfeita
e nela me envolvo
enquanto sonho o teu regresso.

Oiço o doce trinado do melro
e vislumbro o adejar belíssimo
de uma borboleta amarela
que inebriada pelo sol
voluteia, solta, como poalha dourada.
Uma brisa leve traz-me o aroma das rosas
que se abrem sob o calor morno que as acaricia.

A manhã é uma mistura subtil
de sons e cores,
o meu pensamento corre pela vereda
velada pelas sombras
e pintalgada pelas flores de Maio.
O tempo é como um pássaro sem asas,
permanece, quieto, sob a luz filtrada pelas folhas.

Ao longe
o rumor dos teus passos
rompe o meu torpor
e  a promessa dum abraço
acende-me as veias,
lentamente.

foto encontrada na net



sexta-feira, março 04, 2011

O TEMPO JÁ VENCIDO





A Voz

Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido

os dedos que me
vogam
nos cabelos

e os lábios que me
roçam pela boca
nesta mansa tontura
em nunca tê-los...

Meu amor
que quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos...

Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei
para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens.

Maria Teresa Horta
Imagem colhida na net

quarta-feira, fevereiro 23, 2011



No chão queimado pelas guerras
as rosas morrem
sufocadas.


Imagem colhida na net

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

ESTILHAÇOS


Um som surdo e triste
ecoa na tarde que finda, melancólica.
É o grito de morte
de um sonho que se estilhaça
e se transforma em mil pedaços rutilantes
quando os últimos raios de sol se passeiam
pela paisagem quieta e bucólica.
Subitamente um bater de asas
e um pássaro verde e amarelo
risca o céu escurecido
e num voo embriagado
desaparece numa nuvem
de um resplandecente tom dourado.
A noite chega indecisa
E o silêncio fecha tudo à sua volta.

Fotografia de Daniel de Granville
encontrada na web

Rosas

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