sexta-feira, novembro 12, 2010

BRANCURA





Compreendo que não tenhas tremido quando a tua mão

deslizou pela página, deixando as linhas em branco. Nada do que

não escreveste está errado; nem o nada que leio, linha a linha, me

obriga a corrigir o que quer que seja. Nem riscos a vermelho,

nem notas à margem: o branco obriga ao branco e de uma ponta

à outra é este branco que eu tenho pela frente, sem nada para

ver além das próprias linhas azuis como linhas de horizonte

nesse mar que é a tua cabeça vazia. Mas obrigas-me a partir

para dentro dele, com o batiscafo das profundezas, em busca

do que se esconde sob o teu branco. Talvez fosse melhor olhar-te

nos olhos e descobrir no centro da íris esse espaço, a que uns

chamam o abismo de si, onde se decide o que há para fazer

quando o papel está vazio, e só a mão que escreve pode fazer

alguma coisa para transpor as linhas que se abrem, rectas

e azuis, pela frente do que não sabes. E entregas a decisão ao nada,

o que talvez seja a mais sábia das decisões para quem está perante

o que não escreveste, sem saber ao certo se o branco pode ser uma

resposta ao que te perguntaram, ou se és tu que transformaste

em nada tudo o que aprendeste. Desço, assim, ao fundo do mar, por entre

as linhas que deixaste em branco, para me esquecer de tudo o que sei.




De Nuno Júdice

EXAME EM BRANCO
in A matéria do poema

Imagem encontrada aqui
marimauraraiodeluz.blogspot.com

16 comentários:

Valquíria Oliveira Calado disse...

Olá querida, gostei do que li, mas comigo a vida funciona diferente, eu encho as linhas de rabiscos muito erros, borrões, estou sempre corrigindo... refazendo e aprendendo, com a mesma facilidade que erro, concerto e sigo, cair e levantar é meu forte, se há uma coisa que nesta vida fiz, foi levar rasteiras... mas aprendemos a escrever novos enredos, reformulando o que restou... um texto que me fez refletir, posso dizer que foi boa a reflexão, beijos.

José disse...

Li a mensagem que deixaste
em linhas brancas escreveste
e até as palavras que apagaste
e as outras que não disseste

bfds
bjus
J.

F Nando disse...

Escrever no branco da folha...

São disse...

O branco pode ser um desafio ou um susto...

Um bom domingo.

Vanuza Pantaleão disse...

Oi, amiga!
O branco, a reunião de todas as cores. Pode ser que depois de ter escrito em cada uma delas, o poeta experimentou o branco e nela libertou-se, pode ser...

Um Poema lindo e relflexivo.

Um ótimo final de semana grata pela visita!!!Bjsss

ErikaH Azzevedo disse...

Adoro essa poética do desviginar o papel, as letras que correm soltas, toda essa simbologia.

Nossa, esse eu não conhecia, apesar degostar das coisas que o Nuno Júdice escreve, as muitas que tenho lido...a menina tá de parabéns pela escolha.

Monte de beijos a ti.

Erikah

C Valente disse...

Bom domingo com as saudações amigas

Maria Luisa Adães disse...

O branco é o reflexo de um conjunto de sete cores.

Olha bem para o branco, não desvies teu olhar, mas olha e o vais transformar em palavras, cores
ou Nada!

O Nada pode ser o Tudo e conduzir ao Todo.
Então, a história ainda não está acabada...

E se no branco deixares caír uma lágrima salgada, talvez ele mude de cor e apareçam imagens, como se fossem escritas a primor.

Não desistas de nada!
O Nada pode ser o Tudo e conduzir ao Todo! E continuo a dizer,
"a história não está acabada"...

beijos,

Maria Luísa

Thiago disse...

Olá Baby!

Gostei do seu poema, expressa bem o sentimento, sua visão de mundo. O melhor de descer ao fundo do mar, é que nos vemos obrigados a aprender como voltar a superfície. O importante e voltar, por mais que afunde.

Abraço,

Thiago

Canto da Boca disse...

Eu fico a imaginar a alegria das letras quando elas inauguram um papel em branco, cheia/o de emoções...


E vim deixar beijo e carinho, que a semana inicie linda!


;)

Fernando Santos (Chana) disse...

Belo poema...Espectacular....
Cumprimentos

poetaeusou . . . disse...

*
alva escrita,
na pureza de Nuno Júdice !
,
conchinhas,
,
*

piedadevieira disse...

Que maravilhosa escolha, melhor ainda a partilha.
Uma página em branco...tantas coisas escondidas, tantas para serem escritas. Amei.
Beijinhos, querida amiga

Flor da Vida disse...

Amiga querida, obrigada por compartilhar esse lindo e reflexivo poema que nos ver tantas coisas através dessas linhas em branco... Amei!!! Deixo a ti meu carinho, com saudades de você... Bjsss

Nilson Barcelli disse...

Escrever sobre nada é obra...
Grande escritor, este Nuno.
Também gosto da poesia que ele faz.
Querida amiga, um beijo.

C Valente disse...

Saudações amigas e bom fim de semana

Rosas

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