segunda-feira, julho 25, 2011

NAS CURVAS DO POEMA

Nas curvas do poema
o amor insinua-se como a luz da lua
e desliza nas palavras
até chegar ao novo verso
que por ser novo se entrega por inteiro
nas mãos do poeta controverso
que ora o enfeita com as cores da aurora
ora o faz triste como uma manhã de nevoeiro  


Nas curvas do poema 
cabem palavras como o azul do mar
e o barco verde que o navega
cabem o céu e os pássaros que lá moram
também o sol e a luz que nos aquece
o rio que lava a terra da desgraça
a noite negra que antecede o dia
o vento que sopra e nos devassa
a mulher que chora porque a vida a ludibria
e a flor que morre para que o fruto nasça.


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terça-feira, julho 12, 2011

PEDIDO




Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande.


Adélia Prado
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sábado, junho 25, 2011

SILÊNCIO E SOMBRA



O Silêncio


Quando a ternura 
parece já do seu ofício fatigada, 


e o sono, a mais incerta barca, 
inda demora, 


quando azuis irrompem 
os teus olhos 


e procuram 
nos meus navegação segura, 


é que eu te falo das palavras 
desamparadas e desertas, 


pelo silêncio fascinadas. 

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"
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sexta-feira, junho 10, 2011

COMO ASAS




Quando eu morrer

Quando eu  morrer,não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa

que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me

a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

M.do Rosário Pedreira
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sexta-feira, junho 03, 2011

MEMÓRIAS VELADAS


PAIRA DESOLADO UM VÉU

Paira desolado um véu de nuvens,
ao declinar da chama que morre pelas tardes.

Acendem-se devagar os ecos do passado,
o lume cortante do hábil sílex transitório,
desde os nossos tetravós da terra rigorosa.

O coar do dia acresce um dízimo fio de água
vindo do mais remoto das profundezas,
para mitigar a nossa sede,
as nossas quotidianas esperanças
noutros esplendores azuis de céus e estrelas.

Mas é tarde para a repetida veleidade
dos vencidos.

Para que são estas quotidianas memórias
senão para acender outras distantes estrelas
e entender o efémero do presente?

Para que é o esplendor de céus azuis
senão para prolongar a eternidade
da luz, escorrendo sobre nós?

E ao declinar da tarde, despimo-nos da fé.

Já não é possível olhar o céu de ontem.

Os nossos filhos também aprendem devagar
com a última passagem dum corpo
sobre a terra.

Poema de VIEIRA CALADO
no livro POR DETRÁS DAS PALAVRAS




segunda-feira, maio 16, 2011

MANHÃ EM TONS DE VERDE



Na quietude do verde
onde o meu olhar se alonga,
reinvento a paz perfeita
e nela me envolvo
enquanto sonho o teu regresso.

Oiço o doce trinado do melro
e vislumbro o adejar belíssimo
de uma borboleta amarela
que inebriada pelo sol
voluteia, solta, como poalha dourada.
Uma brisa leve traz-me o aroma das rosas
que se abrem sob o calor morno que as acaricia.

A manhã é uma mistura subtil
de sons e cores,
o meu pensamento corre pela vereda
velada pelas sombras
e pintalgada pelas flores de Maio.
O tempo é como um pássaro sem asas,
permanece, quieto, sob a luz filtrada pelas folhas.

Ao longe
o rumor dos teus passos
rompe o meu torpor
e  a promessa dum abraço
acende-me as veias,
lentamente.

foto encontrada na net



sexta-feira, março 04, 2011

O TEMPO JÁ VENCIDO





A Voz

Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido

os dedos que me
vogam
nos cabelos

e os lábios que me
roçam pela boca
nesta mansa tontura
em nunca tê-los...

Meu amor
que quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos...

Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei
para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens.

Maria Teresa Horta
Imagem colhida na net

quarta-feira, fevereiro 23, 2011



No chão queimado pelas guerras
as rosas morrem
sufocadas.


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sexta-feira, fevereiro 11, 2011

ESTILHAÇOS


Um som surdo e triste
ecoa na tarde que finda, melancólica.
É o grito de morte
de um sonho que se estilhaça
e se transforma em mil pedaços rutilantes
quando os últimos raios de sol se passeiam
pela paisagem quieta e bucólica.
Subitamente um bater de asas
e um pássaro verde e amarelo
risca o céu escurecido
e num voo embriagado
desaparece numa nuvem
de um resplandecente tom dourado.
A noite chega indecisa
E o silêncio fecha tudo à sua volta.

Fotografia de Daniel de Granville
encontrada na web

domingo, janeiro 30, 2011

FICA





Não partas já.Fica até onde a noite se dobra
para o lado da cama e o silêncio recorta
as margens do tempo.É aí que os livros
começam devagar e as cores nos cegam
e as mãos fazem de norte na viagem.Parte apenas
quando amanhã se ferir nos espelhos do quarto
em estilhaços de luz;e um feixe de poeiras
rasgar as janelas como uma ave desabrida.
Alguém murmurará então o teu nome,vagamente,
como a gastar os dedos na derradeira página.
E então,sim,parte,para que outra história se
invente mais tarde,quando os pássaros gritarem
à primeira lua e os gatos se deitarem sobre
o muro,de olhos acesos,fingindo que perguntam.

Maria do Rosário Pedreira
Foto da web

domingo, janeiro 23, 2011

PORQUE SERÁ


Haverá sempre esta cama onde me deito
a luz que espreita sob o abajour
e se reflecte na parede branca...
Porque será então que não me vejo?


Foto da web

quinta-feira, janeiro 13, 2011

COMO UM BARCO NA TORMENTA

O meu amor é como um barco na tormenta
tanto busca o absoluto
na crista da mais alta onda
como mergulha no negrume
dum mundo feito de silêncio e sombra.
Mas lá no fundo desse mundo
há peixes coloridos e muitos, muitos limos
e no meio desses limos,
o mar é mais verde e mais fecundo
e é lá que eu vou ficar
à espera de sonhar...
sonhar que sou um lindo peixe verde
com um brilho luminoso no olhar
e no peito uma vontade imensa de acreditar.

Imagem encontrada na net

quarta-feira, janeiro 05, 2011

RECOMEÇO

Neste começo de 2011, em que nos são vaticinadas tantas dificuldades, nada melhor  que este belo poema de Miguel Torga,  para nos incutir um pouco de ânimo e esperança!

Recomeça...
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade. 
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
o logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

Miguel Torga
Imagem encontrada net.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

MAIS UM NATAL

Senhor, obrigado
por mais um Natal.
Por tudo o que tenho.
O beijo dos filhos.
O riso dos netos.
O calor dos amigos.
O amor dos afectos.
As pernas que andam.
Os sons que eu escuto.
Os braços que abraçam.
As mãos que se estendem.
Perfumes que eu sinto.
O doce que eu gosto,
dizendo cuidado
com o amargo que há.
Senhor obrigado
por mais um Natal.
E tantos presentes
que sem custar nada
me fazem feliz.
Ser livre de ódio.
Saber-me finito.
Guardar humildade.
Cuidar-me da glória
que passa depressa
e às vezes faz marcas
profundas, doídas.
E crer noutra vida,
essência do homem,
milagre de Ti.
Senhor obrigado
por mais um Natal.(...)

Mendes Ribeiro
Imagem da net

sexta-feira, dezembro 17, 2010

quarta-feira, dezembro 08, 2010

CONVITE





O Grupo dos Amigos de Lagos, na continuação da sua meritória acção de divulgar a poesia e os poetas da cidade lança em colaboração com a Câmara Municipal de Lagos a V Edição do livro

5 Poetas de Lagos

O evento vai ocorrer na Biblioteca Municipal Dr. Júlio Dantas de Lagos, dia 12 de Dezembro pelas 17H00

Será um privilégio e enorme prazer para o Grupo dos Amigos de Lagos e para os poetas lacobrigenses contar com a Vossa presença no evento.


Até Domingo

terça-feira, novembro 30, 2010

ESPERANÇA




Tantas formas revestes, e nenhuma
Me satisfaz!
Vens às vezes no amor, e quase te acredito.
Mas todo o amor é um grito
Desesperado
Que apenas ouve o eco...
Peco
Por absurdo humano:
Quero não sei que cálice profano
Cheio de um vinho herético e sagrado.


Miguel Torga, in 'Penas do Purgatório'

domingo, novembro 21, 2010

QUANDO OS PEIXES ERAM VERDES

Relendo e revivendo EUGÉNIO DE ANDRADE

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio,
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
Gastámos as mãos à força de as apertarmos,
Gastámos o relógio e as paredes das esquinas
em esperas inúteis.


Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tinhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava, mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes
e eu acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.


Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.


Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.


Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inutil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Poema  ADEUS
de Eugénio de Andrade

Imagem encontrada na net

sexta-feira, novembro 12, 2010

BRANCURA





Compreendo que não tenhas tremido quando a tua mão

deslizou pela página, deixando as linhas em branco. Nada do que

não escreveste está errado; nem o nada que leio, linha a linha, me

obriga a corrigir o que quer que seja. Nem riscos a vermelho,

nem notas à margem: o branco obriga ao branco e de uma ponta

à outra é este branco que eu tenho pela frente, sem nada para

ver além das próprias linhas azuis como linhas de horizonte

nesse mar que é a tua cabeça vazia. Mas obrigas-me a partir

para dentro dele, com o batiscafo das profundezas, em busca

do que se esconde sob o teu branco. Talvez fosse melhor olhar-te

nos olhos e descobrir no centro da íris esse espaço, a que uns

chamam o abismo de si, onde se decide o que há para fazer

quando o papel está vazio, e só a mão que escreve pode fazer

alguma coisa para transpor as linhas que se abrem, rectas

e azuis, pela frente do que não sabes. E entregas a decisão ao nada,

o que talvez seja a mais sábia das decisões para quem está perante

o que não escreveste, sem saber ao certo se o branco pode ser uma

resposta ao que te perguntaram, ou se és tu que transformaste

em nada tudo o que aprendeste. Desço, assim, ao fundo do mar, por entre

as linhas que deixaste em branco, para me esquecer de tudo o que sei.




De Nuno Júdice

EXAME EM BRANCO
in A matéria do poema

Imagem encontrada aqui
marimauraraiodeluz.blogspot.com

quinta-feira, novembro 04, 2010

AMANHÃ

Amanhã

o amor virá ao meu encontro
exuberante de paixão
e de desejos incontidos.
Chegará com a aurora
envolto em sua rubra cor
e ao tocar-me o coração
o dia romperá, numa explosão,
mostrando todo o seu esplendor!

Gritarei teu nome
sobre a terra frágil
e lumes se acenderão
trespassando o espaço
que até então nos separara.
Tu virás com teus olhos mudos
e  teus braços abertos
e me prenderás no teu abraço.

Mil aves enfeitarão os céus
resplandecendo sob a luz do sol
e as palavras brotarão em nós
como murmúrios renascidos
que subirão de tom
como asas que se abrem
para o seu primeiro voo,
impulsionadas por melodioso som.

Imagem colhida na net

Rosas

Rosas
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