quinta-feira, março 08, 2012

PARA NÓS, MULHERES

De uma amiga, recebi este poema lindo e tomei a liberdade de o partilhar com todas as mulheres, que, como eu, se sentem hoje mais leves e lindas.


Ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie
de mãos dadas com o ar.
Enfeite-se com margaridas e ternura e escove
a alma com leves fricções de esperança.
De alma escovada e coração estouvado,
saia do quintal
de si mesmo e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para
quem passe debaixo da sua janela.
Ponha intenções de quermesse em seus olhos
e beba licor de contos de fada.
Ande como se o chão estivesse repleto 
de sons de flauta
e do céu descesse uma névoa de borboletas
cada qual trazendo uma pérola falante
a dizer frases subtis
e palavras de galanteria,

Artur da Távola

quinta-feira, fevereiro 16, 2012

NEM EU SEI



Tenho o nome duma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que atravessei.
Eugénio de Andrade
Foto da net

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

BAILARINA


POR DELICADEZA

Bailarina fui
Mas nunca dansei*
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dansei* no avesso
Do tempo bailado

Dansarina* fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei

Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado

Bailarina fui
Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse
Também eu direi:

"Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi minha vida"

Poema  POR DELICADEZA in O Nome das coisas
* sic
De Sophia de Mello Breyner Andresen



terça-feira, janeiro 17, 2012

AS CORES DA VIDA

Eu quero que a vida seja 
sempre azul, verde a amarela.

Azul,
quando de manhã bem cedo
eu abro a minha janela.

Verde,
quando eu inspiro
e sinto o cheiro molhado da terra.

Amarela,
quando o sol se acende
e a vida canta vitória.

Foto encontrada na net.

terça-feira, janeiro 03, 2012

DIZ-ME O TEU NOME



Diz-me o teu nome - agora que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão


com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol de neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo ao ouvido,


como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o


nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.


Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim.

Maria do Rosário Pedreira

sábado, dezembro 10, 2011

BOAS FESTAS


São estes os meus votos para todos os amigos da Blogosfera

quinta-feira, novembro 17, 2011

MULHER




ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A MULHER


Elas são as mães: 
rompem do inferno, furam a treva, 
arrastando 
os seus mantos na poeira das estrelas. 

Animais sonâmbulos, 
dormem nos rios, na raiz do pão. 

Na vulva sombria 
é onde fazem o lume: 
ali têm casa. 
Em segredo, escondem 
o latir lancinante dos seus cães. 

Nos olhos, o relâmpago 
negro do frio. 

Longamente bebem 
o silencio 
nas próprias mãos. 

O olhar 
desafia as aves: 
o seu voo é mais fundo. 

Sobre si se debruçam 
a escutar 
os passos do crepúsculo. 

Despem-se ao espelho 
para entrarem 
nas águas da sombra. 

É quando dançam que todos os caminhos 
levam ao mar. 

São elas que fabricam o mel, 
o aroma do luar, 
o branco da rosa. 

Quando o galo canta 
Desprendem-se 
para serem orvalho. 

Eugénio de Andrade
Imagem recolhida na net

quinta-feira, novembro 10, 2011

AMARGURA




Canção amarga

Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
- Importa amar, sem ver a quem...
Ser mau ou bom, conforme os dias.

Agora, tu, só entrevista,
quantas imagens me trouxeste!
Mas é preciso que eu resista
e não acorde um sonho agreste.

Que passes tu! Por mim, bem sei
que hei-de aceitar o que vier,
pois tarde ou cedo deverei
de sonho e pasmo apodrecer.

Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
- Importa amar, sem ver a quem...
Ser infeliz, todos os dias!

David Mourão-Ferreira in "A Secreta viagem"


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terça-feira, outubro 25, 2011

ENXURRADA


Esta noite choveu no deserto que albergo no meu peito
e uma enxurrada varreu meus grãos de areia
pela encosta abaixo do meu corpo
abrindo sulcos obscenos, de uma beleza proibida
e as águas que por eles escorriam
em rio caudaloso se tornaram
arrastando consigo amores que o tempo já esquecera,
dores e alegrias, versos que escrevi,
palavras que guardei e que roubara nos livros que já lera
e erros, tantos erros em que teimosamente persisti,
as respostas que não dei e as perguntas que não fiz,
o choro que na tristeza não chorei,
e os risos que por falta de alegria não soltei.
De todas essas coisas me desfiz.
E nessas águas, que depois da queda se amansaram
eu me deixei afogar,
pois num deserto sem areia
o sol nunca mais volta a brilhar.

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segunda-feira, outubro 10, 2011

UM GESTO DE ASA


DIA



Mergulho no dia como em mar ou seda
Dia passado comigo e com a casa
Perpassa pelo ar um gesto de asa
Apesar de tanta dor e tanta perda

De: Sophia de Mello Breyner Andresen
in  O NOME DAS COISAS

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quinta-feira, setembro 22, 2011

FUGA


É na garganta
que as palavras se atropelam
e as perguntas se debatem
na ânsia de ser feitas,
é lá que tudo se enovela
e um nó de muitas pontas se agiganta
me toma por inteiro e me sufoca

Sorvendo o ar em goles diminutos
mergulho no caos da incerteza
e busco a minha essência
num regresso às origens mais profundas
que procuro sem cessar nas escuras águas
da minha inconsciência.

Sou de novo um embrião
que busca nesse fluido acolhedor
o calor e a segurança que a vida me roubou.
E adormeço, sentindo que sou parte dessa água
onde flutuo, e que o tempo já vivido
não passa de uma sombra que se esfuma.

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terça-feira, setembro 06, 2011



Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

Eugénio de Andrade
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segunda-feira, julho 25, 2011

NAS CURVAS DO POEMA

Nas curvas do poema
o amor insinua-se como a luz da lua
e desliza nas palavras
até chegar ao novo verso
que por ser novo se entrega por inteiro
nas mãos do poeta controverso
que ora o enfeita com as cores da aurora
ora o faz triste como uma manhã de nevoeiro  


Nas curvas do poema 
cabem palavras como o azul do mar
e o barco verde que o navega
cabem o céu e os pássaros que lá moram
também o sol e a luz que nos aquece
o rio que lava a terra da desgraça
a noite negra que antecede o dia
o vento que sopra e nos devassa
a mulher que chora porque a vida a ludibria
e a flor que morre para que o fruto nasça.


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terça-feira, julho 12, 2011

PEDIDO




Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande.


Adélia Prado
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sábado, junho 25, 2011

SILÊNCIO E SOMBRA



O Silêncio


Quando a ternura 
parece já do seu ofício fatigada, 


e o sono, a mais incerta barca, 
inda demora, 


quando azuis irrompem 
os teus olhos 


e procuram 
nos meus navegação segura, 


é que eu te falo das palavras 
desamparadas e desertas, 


pelo silêncio fascinadas. 

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"
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sexta-feira, junho 10, 2011

COMO ASAS




Quando eu morrer

Quando eu  morrer,não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa

que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me

a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

M.do Rosário Pedreira
Imagem encontrada na net

sexta-feira, junho 03, 2011

MEMÓRIAS VELADAS


PAIRA DESOLADO UM VÉU

Paira desolado um véu de nuvens,
ao declinar da chama que morre pelas tardes.

Acendem-se devagar os ecos do passado,
o lume cortante do hábil sílex transitório,
desde os nossos tetravós da terra rigorosa.

O coar do dia acresce um dízimo fio de água
vindo do mais remoto das profundezas,
para mitigar a nossa sede,
as nossas quotidianas esperanças
noutros esplendores azuis de céus e estrelas.

Mas é tarde para a repetida veleidade
dos vencidos.

Para que são estas quotidianas memórias
senão para acender outras distantes estrelas
e entender o efémero do presente?

Para que é o esplendor de céus azuis
senão para prolongar a eternidade
da luz, escorrendo sobre nós?

E ao declinar da tarde, despimo-nos da fé.

Já não é possível olhar o céu de ontem.

Os nossos filhos também aprendem devagar
com a última passagem dum corpo
sobre a terra.

Poema de VIEIRA CALADO
no livro POR DETRÁS DAS PALAVRAS




segunda-feira, maio 16, 2011

MANHÃ EM TONS DE VERDE



Na quietude do verde
onde o meu olhar se alonga,
reinvento a paz perfeita
e nela me envolvo
enquanto sonho o teu regresso.

Oiço o doce trinado do melro
e vislumbro o adejar belíssimo
de uma borboleta amarela
que inebriada pelo sol
voluteia, solta, como poalha dourada.
Uma brisa leve traz-me o aroma das rosas
que se abrem sob o calor morno que as acaricia.

A manhã é uma mistura subtil
de sons e cores,
o meu pensamento corre pela vereda
velada pelas sombras
e pintalgada pelas flores de Maio.
O tempo é como um pássaro sem asas,
permanece, quieto, sob a luz filtrada pelas folhas.

Ao longe
o rumor dos teus passos
rompe o meu torpor
e  a promessa dum abraço
acende-me as veias,
lentamente.

foto encontrada na net



sexta-feira, março 04, 2011

O TEMPO JÁ VENCIDO





A Voz

Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido

os dedos que me
vogam
nos cabelos

e os lábios que me
roçam pela boca
nesta mansa tontura
em nunca tê-los...

Meu amor
que quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos...

Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei
para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens.

Maria Teresa Horta
Imagem colhida na net

quarta-feira, fevereiro 23, 2011



No chão queimado pelas guerras
as rosas morrem
sufocadas.


Imagem colhida na net

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

ESTILHAÇOS


Um som surdo e triste
ecoa na tarde que finda, melancólica.
É o grito de morte
de um sonho que se estilhaça
e se transforma em mil pedaços rutilantes
quando os últimos raios de sol se passeiam
pela paisagem quieta e bucólica.
Subitamente um bater de asas
e um pássaro verde e amarelo
risca o céu escurecido
e num voo embriagado
desaparece numa nuvem
de um resplandecente tom dourado.
A noite chega indecisa
E o silêncio fecha tudo à sua volta.

Fotografia de Daniel de Granville
encontrada na web

domingo, janeiro 30, 2011

FICA





Não partas já.Fica até onde a noite se dobra
para o lado da cama e o silêncio recorta
as margens do tempo.É aí que os livros
começam devagar e as cores nos cegam
e as mãos fazem de norte na viagem.Parte apenas
quando amanhã se ferir nos espelhos do quarto
em estilhaços de luz;e um feixe de poeiras
rasgar as janelas como uma ave desabrida.
Alguém murmurará então o teu nome,vagamente,
como a gastar os dedos na derradeira página.
E então,sim,parte,para que outra história se
invente mais tarde,quando os pássaros gritarem
à primeira lua e os gatos se deitarem sobre
o muro,de olhos acesos,fingindo que perguntam.

Maria do Rosário Pedreira
Foto da web

domingo, janeiro 23, 2011

PORQUE SERÁ


Haverá sempre esta cama onde me deito
a luz que espreita sob o abajour
e se reflecte na parede branca...
Porque será então que não me vejo?


Foto da web

quinta-feira, janeiro 13, 2011

COMO UM BARCO NA TORMENTA

O meu amor é como um barco na tormenta
tanto busca o absoluto
na crista da mais alta onda
como mergulha no negrume
dum mundo feito de silêncio e sombra.
Mas lá no fundo desse mundo
há peixes coloridos e muitos, muitos limos
e no meio desses limos,
o mar é mais verde e mais fecundo
e é lá que eu vou ficar
à espera de sonhar...
sonhar que sou um lindo peixe verde
com um brilho luminoso no olhar
e no peito uma vontade imensa de acreditar.

Imagem encontrada na net

quarta-feira, janeiro 05, 2011

RECOMEÇO

Neste começo de 2011, em que nos são vaticinadas tantas dificuldades, nada melhor  que este belo poema de Miguel Torga,  para nos incutir um pouco de ânimo e esperança!

Recomeça...
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade. 
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
o logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

Miguel Torga
Imagem encontrada net.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

MAIS UM NATAL

Senhor, obrigado
por mais um Natal.
Por tudo o que tenho.
O beijo dos filhos.
O riso dos netos.
O calor dos amigos.
O amor dos afectos.
As pernas que andam.
Os sons que eu escuto.
Os braços que abraçam.
As mãos que se estendem.
Perfumes que eu sinto.
O doce que eu gosto,
dizendo cuidado
com o amargo que há.
Senhor obrigado
por mais um Natal.
E tantos presentes
que sem custar nada
me fazem feliz.
Ser livre de ódio.
Saber-me finito.
Guardar humildade.
Cuidar-me da glória
que passa depressa
e às vezes faz marcas
profundas, doídas.
E crer noutra vida,
essência do homem,
milagre de Ti.
Senhor obrigado
por mais um Natal.(...)

Mendes Ribeiro
Imagem da net

sexta-feira, dezembro 17, 2010

quarta-feira, dezembro 08, 2010

CONVITE





O Grupo dos Amigos de Lagos, na continuação da sua meritória acção de divulgar a poesia e os poetas da cidade lança em colaboração com a Câmara Municipal de Lagos a V Edição do livro

5 Poetas de Lagos

O evento vai ocorrer na Biblioteca Municipal Dr. Júlio Dantas de Lagos, dia 12 de Dezembro pelas 17H00

Será um privilégio e enorme prazer para o Grupo dos Amigos de Lagos e para os poetas lacobrigenses contar com a Vossa presença no evento.


Até Domingo

terça-feira, novembro 30, 2010

ESPERANÇA




Tantas formas revestes, e nenhuma
Me satisfaz!
Vens às vezes no amor, e quase te acredito.
Mas todo o amor é um grito
Desesperado
Que apenas ouve o eco...
Peco
Por absurdo humano:
Quero não sei que cálice profano
Cheio de um vinho herético e sagrado.


Miguel Torga, in 'Penas do Purgatório'

domingo, novembro 21, 2010

QUANDO OS PEIXES ERAM VERDES

Relendo e revivendo EUGÉNIO DE ANDRADE

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio,
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
Gastámos as mãos à força de as apertarmos,
Gastámos o relógio e as paredes das esquinas
em esperas inúteis.


Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tinhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava, mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes
e eu acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.


Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.


Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.


Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inutil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Poema  ADEUS
de Eugénio de Andrade

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sexta-feira, novembro 12, 2010

BRANCURA





Compreendo que não tenhas tremido quando a tua mão

deslizou pela página, deixando as linhas em branco. Nada do que

não escreveste está errado; nem o nada que leio, linha a linha, me

obriga a corrigir o que quer que seja. Nem riscos a vermelho,

nem notas à margem: o branco obriga ao branco e de uma ponta

à outra é este branco que eu tenho pela frente, sem nada para

ver além das próprias linhas azuis como linhas de horizonte

nesse mar que é a tua cabeça vazia. Mas obrigas-me a partir

para dentro dele, com o batiscafo das profundezas, em busca

do que se esconde sob o teu branco. Talvez fosse melhor olhar-te

nos olhos e descobrir no centro da íris esse espaço, a que uns

chamam o abismo de si, onde se decide o que há para fazer

quando o papel está vazio, e só a mão que escreve pode fazer

alguma coisa para transpor as linhas que se abrem, rectas

e azuis, pela frente do que não sabes. E entregas a decisão ao nada,

o que talvez seja a mais sábia das decisões para quem está perante

o que não escreveste, sem saber ao certo se o branco pode ser uma

resposta ao que te perguntaram, ou se és tu que transformaste

em nada tudo o que aprendeste. Desço, assim, ao fundo do mar, por entre

as linhas que deixaste em branco, para me esquecer de tudo o que sei.




De Nuno Júdice

EXAME EM BRANCO
in A matéria do poema

Imagem encontrada aqui
marimauraraiodeluz.blogspot.com

quinta-feira, novembro 04, 2010

AMANHÃ

Amanhã

o amor virá ao meu encontro
exuberante de paixão
e de desejos incontidos.
Chegará com a aurora
envolto em sua rubra cor
e ao tocar-me o coração
o dia romperá, numa explosão,
mostrando todo o seu esplendor!

Gritarei teu nome
sobre a terra frágil
e lumes se acenderão
trespassando o espaço
que até então nos separara.
Tu virás com teus olhos mudos
e  teus braços abertos
e me prenderás no teu abraço.

Mil aves enfeitarão os céus
resplandecendo sob a luz do sol
e as palavras brotarão em nós
como murmúrios renascidos
que subirão de tom
como asas que se abrem
para o seu primeiro voo,
impulsionadas por melodioso som.

Imagem colhida na net

quarta-feira, outubro 27, 2010

ROSEIRAL


                                Foi para ti que criei as rosas.

                                  Foi para ti que lhes dei perfume.

                                 Para ti rasguei ribeiros

                                  e dei às romãs a cor do lume.
          
Eugénio de Andrade



terça-feira, outubro 12, 2010

À RÉDEA SOLTA


Nunca mais a busca angustiada de palavras
que dancem com a rima
num ritmo alucinado.

Seu mundo é à rédea solta
sem métrica nem significado.
Respirando poesia
e voando sem escolta,
são presa fácil do louco
que as arruma,
pouco a pouco
ao sabor do seu sentir.

O que sabem as pessoas
dos versos que os loucos fazem?
são uma mistura tamanha
de alegrias e ais sentidos
de momentos de ilusão
e amores incompreendidos
de beijos leves e doces
e guerras sem fim à vista.

De horas de desalento
e palavras de paixão
de uma doçura envolvente
mas que matam sem ter dó,
outros loucos que à partida,
esquecem completamente
que as palavras dum poema
são uma verdade fingida

Foto da Web

domingo, outubro 03, 2010

PAIXÃO

Um olhar trocado
uma palavra não dita
um gesto sonhado
um sorriso esboçado
e quase escondido
e eis que no peito
um alvoroço se instala
e o coração dispara
e bate de um jeito
que o sangue enlouquece
e ondula nas veias
como seara batida
pelos ventos de leste

E são olhos que riem
sonhos que renascem
mãos que procuram
bocas que prometem

É a paixão que desponta
cá dentro da gente
e nos faz sentir
como se do mundo
fossemos o centro

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sábado, setembro 25, 2010

SOU UM SER

"Sou uma filha da natureza:

quero pegar, sentir, tocar, ser.

E tudo isso já faz parte de um todo,

de um mistério.

Sou uma só... Sou um ser.

E deixo que você seja. Isso lhe assusta?

Creio que sim. Mas vale a pena.

Mesmo que doa. Dói só no começo."


Clarice Lispector

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segunda-feira, setembro 20, 2010

RIO DE PALAVRAS


Surdo, Subterrâneo Rio


Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.


Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?


Eugénio de Andrade

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terça-feira, setembro 14, 2010

NA SOMBRA DOS TEUS DEDOS




Na sombra dos teus dedos
adormeço.

Bato à porta dos sonhos e
estremeço
no calor da tua boca,
sufoco no teu beijo e
desfaleço
fremente como um pássaro
que voa sem ter asas.

E perco-me.

Como um rio sem margens,
vagueio sem ter norte
mergulhada na lembrança
dum tempo esvaziado
onde a vertigem das horas
consumia os dias
e as noites se acendiam
até chegar a alvorada.

Foto encontrada na net

segunda-feira, setembro 06, 2010

NA HORA DO SILÊNCIO


Esta casa tão vazia
Enche-se de penumbra e de tristeza
Quando o sol em agonia
 Tinge tudo de beleza 
Com as cores do entardecer.

É na hora do silêncio
Quando o ambiente se dilui
E a noite principia
Que a tua ausência se mostra, seminua,
Iluminando tudo à volta
Como se em vez de sombra
fosse lua.

Tento ignorá-la, mas em vão,
Insidiosa,
Envolve-me em seus braços de algodão 
E embala-me no colo,
Terna e caridosa,
Cantando-me baixinho,
Até eu adormecer.

Imagem recolhida na net.

quarta-feira, agosto 25, 2010

DESENCONTROS


Este é o amor das palavras demoradas
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve encontro com a vida



Poema BREVE ENCONTRO
de
Sophia de Mello Breyner Andresen
in O NOME DAS COISAS
Imagem encontrada na net

segunda-feira, agosto 16, 2010

POEMA DA NOITE




A noite avoluma-se

Mergulhada em sombras,

Povoada de medos

E de lembranças acesas,

De bocas exangues

Escorrendo palavras,

De olhos vazios

Querendo enxergar.



É na noite escura

Que o sono se perde

Nas curvas da insónia,

Que as horas se alongam

No chão das memórias,

Que os sonhos se inventam

E no peito se acolhem

Como uma semente que quer germinar.


Foto encontrada na net.

segunda-feira, agosto 09, 2010



A amizade é um amor que nunca morre.

                                 Mário Quintana


                               Imagem encontrada na net

segunda-feira, julho 26, 2010

PORTA FECHADA


Num canto perdido em mim

Guardo os beijos que ensaiei

Nas noites quietas, sem fim

E as palavras que inventei

E te queria dizer

Numa manhã de esperança,

Cheirando ao pólen das flores.



Mas à tua porta fechada

Foram perdendo o esplendor,

O viço, a alma e a cor.

Morreram sem dizer nada

Os ecos do meu passado,

Porque a manhã perfumada

Não chegou a acontecer.

Foto encontrada na net

terça-feira, julho 20, 2010

O MUNDO É UMA MARAVILHA


Procura a maravilha.


Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.


No brilho redondo
e jovem dos joelhos.


Na noite inclinada
de melancolia.


Procura.


Procura a maravilha.

Assim diz Eugénio de Andrade
Imagem encontrada na net

domingo, julho 04, 2010

O RUMOR DA ONDA


Soneto do amor difícil


A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa...


Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.


Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.


E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.

               David Mourão-Ferreira
Imagem encontrada na web


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